Não busque a felicidade!

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Não busque a felicidade

Em todos os textos aqui do blog, sempre incentivei as pessoas a irem atrás do que as fazem felizes. Em um vídeo lá do canal, critiquei quem fica metendo o bedelho na vida dos outros e soltei um ultimato: "se você já tá feliz, agora deixe os outros serem felizes".

E não é por menos, sempre acreditei na felicidade.

Das maiores questões existenciais, a "qual o sentido da vida" pra mim tinha resposta certa. A vida não tem um sentido lá no final, o sentido é a própria vida, é o percurso. Assim, na minha opinião, caberia a nós buscar a felicidade durante o caminho.

Mas nos últimos dias venho mudando de ideia.


Desconstruindo a felicidade


Essa foi a frase que começou a instigar pensamentos diferentes em mim.

A felicidade pode ser comprada com uma garrafa de vinho


A frase é do Tim Ferriss, autor do livro "The 4 Hour Workweek". Ela é notória por dois motivos:

Primeiro que coloca a felicidade como algo temporário, não contínuo. Sempre pensei a felicidade como algo contínuo, quase mensurável. E creio que a maioria das pessoas pensa assim. "Você é feliz?", por exemplo, é uma pergunta que denota a felicidade como algo permanente, não passageiro. Mas o fato é que nunca alcançaremos a felicidade plena, ou seremos felizes para sempre. A vida é uma gangorra de emoções. Os mais felizes não são aqueles que estão sempre felizes, mas os que estão felizes por mais tempo, ou mais vezes. Mesmo alguém que se considera feliz sempre tem seus momentos ruins, de infelicidade. Dentro de um mesmo dia eu tenho momentos bons e ruins milhares de vezes, como uma montanha-russa mesmo. Imagino que talvez você sinta a felicidade de forma semelhante: ela vai e vem. É feita de momentos.

O segundo aspecto da frase é colocar a felicidade como algo comprável. Para entendermos este ponto, é necessário entender a felicidade como um momento, não como um estado contínuo. Sempre ouvimos frases do tipo "dinheiro não compra felicidade" e sempre acreditei nisso. Acreditava porque pensava a felicidade como algo contínuo, difícil de se obter. Mas encarando-a como um período de ânimo passageiro, de fato ela pode ser comprada. Pensa num produto que você vem querendo há tempos e em como se sentiria se ele chegasse embalado pra presente na sua porta agora mesmo. Provavelmente se sentiria felizão. Pensa na garrafa de vinho da frase: se você comprar e tomar ela, provavelmente vai se sentir bem, feliz. O "efeito garrafa de vinho" também se dá com aquelas pessoas que se sentem bem fazendo compras no shopping, ou aquelas que não se importam em gastar em eletrônicos recém-lançados. Faz bem pra pessoa, deixa ela feliz - momentaneamente.

Assim, a felicidade não é algo que pode ser adquirida para sempre. Esse incrível TED Talk prova isso de forma brilhante.

Analisaram duas situações: uma pessoa que ganhou na loteria e uma pessoa que ficou paraplégica. A pessoa que ficou paraplégica obviamente entrou numa bad danada após o acidente. Deve ser uma das piores coisas que um ser humano pode viver. Mas depois que o cara aprende a se virar e vê que a vida segue, as coisas passam. O cara que ganhou na loteria provavelmente passou os primeiros meses feliz igual a um porco na lama, gastando pra todos os lados. Mas um ano após os incidentes - o acidente do paraplégico e a sorte do vencedor da loteria - estas duas pessoas se encontravam igualmente felizes com as suas vidas.


Felicidade igual do paraplégico e vencedor da loteria
Nível de felicidade voltando ao que era antes. "In the eeeend, it doesn't even matteeeeer".

Dois eventos tão diferentes, tão impactantes, não tiveram efeito sobre a felicidade dos indivíduos depois de curtos 12 meses. De forma similar, um estudo citado na palestra sugere que um evento ruim na sua vida, se aconteceu há mais de 3 meses, não tem nenhuma influência na sua felicidade atual (com poucas exceções).

Como é possível?

É possível pois a felicidade não é fruto somente do panorama geral da sua vida, mas das coisas pontuais que acontecem com você e como você encara cada uma delas.


Se não é pra ser feliz, é pra ser o quê?

Não sou louco de falar pra você ser infeliz, longe disso. Ser feliz é importante pra caralho! O lance é que o nosso objetivo não deveria ser "ser feliz" em si, mas sim buscar o que nos traz felicidade.

Sabe quando dizem que tomar remédio ataca os sintomas, não o problema? A lógica é parecida.

Por que alguém que ganhou na loteria volta ao mesmo nível de felicidade que tinha antes de ganhar? Porque é necessário que alguma coisa, algum evento, gere a felicidade. Ela é o produto final, não o motor. O cara ficou feliz por 18 meses porque algo tinha gerado nele um sentimento bom. Algo o fez feliz.

Então o que gera a felicidade, o que tem potencial para criá-la, é mais vital do que a própria felicidade.

Ao invés de buscarmos o resultado final, abstrato e temporário que é a felicidade, deveríamos focar em eventos da vida que nos impactem positivamente.

Deixa eu tentar te convencer, pensa comigo...

Pensa naquele domingão de sol. O calor tá desgraçado. Você tá preso em casa porque seus amigos não querem fazer nada. Você tá deitadão no sofá, com o ventilador quase na cara, assistindo TV ou fazendo alguma outra atividade de ocupação mental passiva. Nesse momento de tédio, difícilmente você estará se sentindo feliz. Você consegue, do nada, ficar feliz? Vamos lá, imagina que você percebeu que o sofá quente tá uma merda e que você quer ficar feliz. Dá pra girar uma chave e ficar feliz? Bom, certamente você pode ajustar a sua mentalidade pra encarar as coisas de forma mais positiva, mas feliz mesmo é difícil. O que você pode e deve fazer é sair da porra do sofá e se engajar com algo que te motive, algo que te excite, que te faça sorrir. Algo que você realmente goste, algo que te dê energias pra largar o sofá e ir atrás. Algo que te deixe ansioso antes de fazer e com um sorriso no rosto depois de fazer. 

"Faça algo que você gosta". Já ouviu essa, né? Porque a galera que diz isso tá certa. Fazer algo que a gente gosta é o melhor combustível pra tornar os momentos de felicidade mais recorrentes e duradouros.


"Assim como o oposto do amor não é o ódio, e sim a indiferença, o oposto da felicidade não é a tristeza, mas sim o tédio" - Tim Ferriss

Levando essa frase em consideração, fica mais claro que a forma de gerar felicidade é constantemente ir atrás de coisas que nos façam bem, que nos animem e motivem, que gerem na gente um sentimento de satisfação ou de ter alcançado alguma coisa.

Minha última semana não tinha sido nada demais. Mas aí peguei a patroa e um amigo e fomos pra praia. O dia tava maravilhoso, espetacular. A água gelada bem do jeito que gosto. Caminhei, mergulhei e joguei frescobol. Subi no costão e observei a lua, magnífica e gigante. Comi pastel na volta pra casa. Tomei um banho quente e ainda rolou um gás pra uma pipoca com filme. O dia tinha sido perfeito. Fui dormir feliz pra caralho. Ter saído de casa e feito algo que eu adoro mudou completamente meu estado de ânimo. E mais, gerou tração. Essa felicidade toda não acabou quando fui dormir. Foi mais duradoura, acabou mesmo uns 2 ou 3 dias depois. Mas eventualmente voltei ao estado normal que me encontrava antes daquele dia maravilhoso na praia. Agora a bola tá comigo novamente: é hora de achar outra coisa pra cutucar meu nível de felicidade pra cima de novo.

Sol na Praia da Joaquina - Florianópolis
Praia da Joaquina tava lindona assim nesse último fim de semana

Parece uma conclusão simples, mas todo objetivo fica mais difícil se não sabemos como alcançá-lo. Você pode querer ser mais feliz e não saber como. Tem gente que "espera" a felicidade chegar. Tem gente que acha que a felicidade vem com a aposentadoria. Tem gente que acredita que grandes eventos, como ganhar na loteria e ficar rico, vão trazer a felicidade. Mas o fato é que ela tá bem mais perto do que imaginamos, só precisamos parar de mirar nela e começar a mirar no que leva à ela.

Buscar "ser feliz" é um abstrato que não nos orienta pra ação. Saber o que nos motiva e nos dá tesão, por outro lado, é acionável e está sob nosso controle.

Não é possível "encontrar" a felicidade, é preciso criá-la, sempre.

E a hora é agora e todas as outras horas. Sai do sofá!










Como sempre, trabalhar em cima de um texto tira um pouco da capacidade do autor de fazer uma autocrítica em cima do que escreveu. Espero que meu ponto tenha sido claro e não uma confusão mental vomitada em forma de texto. Se você tiver algo a falar sobre o que escrevi, deixa aí nos comentários que vou ficar feliz pra caralho. Ou passa lá no twitter e me diz o que achou do post! ;))


7 comentários:

  1. Seu texto reflete bem meus pensamentos nesses últimos tempos. Não podemos depender do que não temos para sermos felizes, os pequenos prazeres da vida são momentos de felicidade que devem ser valorizados.
    O único cuidado é evitar que as coisas que nos fazem bem substituam nossos sonhos e objetivos ou desmotive nossa luta por acharmos que nada precisa mudar por estarmos confortáveis.
    Li uma vez que, as férias só são momentos de prazer porque conhecemos o esforço do trabalho. É questão de perspectiva, só damos valor ao que temos quando conhecemos sua ausência.
    Infelizmente, é comum chegar ao fim da vida, ou ao topo do mundo e descobrir que a felicidade não está lá, mas esteve dentro de nós o tempo todo.
    Valeu pelo texto, é sempre agradável reconhecer semelhanças de nossas ideias em outros lugares.

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    1. Não acho que alguém possa se deixar levar pela zona de conforto quando está sempre na busca de fazer coisas que gosta, que tragam motivação e realização. No momento que a pessoa para de correr atrás dessas coisas é que cai no conforto dos prazeres mundanos, normais, e perde o tesão só trazido por coisas mais profundas, daquelas que balançam a pessoa mesmo. Fora esse detalhe, concordo com tudo que foi dito. E eu é que agradeço pelo seu comentário, Jonathan. Obrigado! ;))

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  2. Olá my friend.
    Seu texto me lembrou muito minha primeira aula de filosofia da minha vida (7ª série acho), onde meu professor entrou na sala olhou para todos os alunos e foi perguntando para cada um se éramos felizes. Obviamente todos respondemos que sim, mas foi aí mesmo que ele disse que não somos felizes, que temos momentos de felicidade, pois (ao ver dele), a gente se depara com uma interrupção na felicidade sempre depois que ela vem.

    Não muito tempo atrás, um artista que amo muito escreveu uma frase que dizia mais ou menos assim: "Cansei de buscar a felicidade, mas tenho a música e ela me faz bem", quando li isso, me deixou muito preocupada, pois ele sempre posta frases incríveis de incentivo colocando as pessoas para cima, e do nada ele me diz que não é feliz e que a profissão dele é o faz bem à ele? Lendo isso me faz parar para pensar em muitas coisas na minha vida, meu trabalho (que aliás estava acabando comigo literalmente), na busca para o sucesso profissional, e percebi exatamente o que meu professor falou e o que você escreveu em seu texto: eu não era feliz, mas pior ainda, não estava buscando os momentos felizes. Receber este choque do artista que amo de coração, confesso que não foi nada bom, fiquei uns 4 dias pensando na vida (minha e dele) , claro, tentando encontrar o que me faria feliz de verdade.
    Resumindo: Saí do emprego e estou agora buscando espaço na área artística também, pois isso sim me faz feliz.
    Sobre seu texto, achei ele incrível! Amei mesmo. Como diria meu professor do MBA: você filosofou muito lindo!

    Abraços

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    1. "Filosofou muito lindo" hahahahaha adorei!

      Muito legal a sua história, Monica. Espero que essa mudança se prove benéfica pra você, nada melhor do que trabalhar com algo que gosta. Obrigado pelo comentário! ;)

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. A busca pela felicidade é como uma pescaria, de vez em quando você a pesca, ora bolas: você é um indivíduo (pescador) vivenciando o fluxo da vida (rio) e de quando em quando você “fisga” aquele momento especial (felicidade) e o vive como se deve. Realmente existe um ponto de estabilidade de bem-estar após um momento de felicidade, que nivela a todos, assim como a paixão (eros), que é um fenômeno com data de validade, já ouviu falar da história do tempo estimado de três anos de duração que a paixão duraria?

    Gostei da frase: “O lance é que o nosso objetivo não deveria ser "ser feliz" em si, mas sim buscar o que nos traz felicidade. Sabe quando dizem que tomar remédio ataca os sintomas, não o problema? A lógica é parecida.”

    Ah, não consigo concordar com essa frase, desse tal Tim Ferriss: "Assim como o oposto do amor não é o ódio, e sim a indiferença, o oposto da felicidade não é a tristeza, mas sim o tédio". A indiferença e o tédio estão no intermédio da escala sentimental, o ódio e a tristeza sim são opostos respectivamente ao amor e à felicidade. Mas deu para entender... acho.

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    1. Interessante a analogia com a pescaria. Só creio que há uma diferença quanto à felicidade pois quando alguém vai pescar, depende da disponibilidade de peixes no local, dos peixes estarem atraídos pela isca ou não e diversos outros fatores que não estão sob controle do pescador.

      Quanto à frase do Tim Ferriss, a ideia é que amor e ódio são dois lados da mesma moeda. São sentimentos conectados que podem até coexistir. Como quando dizemos que o ódio todo de alguém para com outra pessoa na verdade é amor. Ou quando alguém tem uma pessoa específica que "ama odiar'. Por isso, a indiferença seria o oposto do amor, pois nada sente-se em relação à outra pessoa. De fato a frase gera discussão, mas de qualquer forma acho que ela é pertinente ao texto, pois me parece claro que o tédio/desânimo é um dos inimigos da felicidade.

      Obrigado pelo apoio de sempre, Darley!

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