Por que as pessoas gostam de cuidar da vida alheia?

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Há mais de 10 anos uma mulher faz a limpeza aqui de casa quando a situação tá feia. É muito querida, tem intimidade com a família e tal. Certo dia ela me larga algo assim:

"Tua irmã é muito linda, merecia um homem rico, que desse tudo que ela quisesse!"

A frase assusta por diversos motivos. A parte em referência ao dinheiro e a colocação de bens materiais como algo muito importante é questionável e quem lê o doisbits sabe o que penso a respeito. Mas o que me bateu na cabeça, na hora em que ela falou isso, foi o quanto as pessoas gostam de se meter na vida dos outros.

Cuidar da vida alheia
Fofoca. Na sua vizinhança deve ter alguém que fala de você.

Esse caso é só mais um. As pessoas falam dos relacionamentos, das escolhas de vida e principalmente da aparência dos outros com frequência. Brasileiro parece curtir uma fofoquinha. "como Fulana pode estar com um cara tão feio?", "Beltrano merecia alguém melhor", "que vestido/calça/cabelo/sapato ridículo" e assim vai.

Uma conhecida de Facebook namorava um gordinho. Certa vez ela postou algo como:

"Enquanto você vive julgando, o casal vive feliz"

Na mosca.

Cada um tem seus próprios demônios, seus próprios problemas pra resolver. Temos tanto a fazer e ajustar nas nossas próprias vidas e, ainda assim, muitas vezes nos pegamos querendo cuidar da vida alheia.

Esses dias eu estava no boteco com os amigos e surgiu o papo de que agora há homens usando calças legging na academia. Aquelas de ciclista, bem apertadinhas, manja?

Cuidar da vida alheia
Vários modelos a venda na loja da Nike. Vai se acostumando que a parada, pelo jeito, vai popularizar.

É diferente? É. Em geral são as mulheres que usam? Sim. Mas é confortável, fica melhor pra malhar? Se a resposta também for sim, então FODA-SE. O que temos a ver com as roupas que uma outra pessoa tá usando, porra? Na moral mesmo.

Nesse caso específico, dá pra separar as reações. Alguns podem não ter achado legal porque a tal calça fica BEM justa e pode deixar um certo volume na frente, já que o ser humano do sexo masculino tem uma coisa balançante por ali. Aí o argumento seria de que a roupa não é apropriada para um ambiente como o de uma academia - assim como nenhuma mulher malha usando biquíni. Mas em geral, percebi que a indignação não era essa. A indignação era pelo uso da calça ser algo diferente, que nenhum homem antes usava, e por ser "coisa de boiola". Agora eu te pergunto: o que diabos você tem a ver com isso? Se o cara acha bom usar a tal da legging na academia, deixa ele ser feliz. A calça dele vai ter algum efeito na sua vida?

Outro momento em que me lembro com clareza da reação popular foi quando o Daniel Alves fez um corte de cabelo diferente e foi pra campo com o Barcelona.

Cuidar da vida alheia
Falaram quase mais do cabelo do que do próprio jogo.

O instinto de cuidar da vida alheia bateu forte nas pessoas. As mídias sociais caíram de pau em cima do cara como se ele tivesse cometendo um crime. E o negócio passou do tom da zoeira saudável. Eu vi nos tweets uma raiva do Daniel, uma indignação e uma vontade louca de ridicularizá-lo, só por causa do cabelo.


Ficar julgando os outros pela aparência parece ser quase da nossa natureza, mas é tão escroto que, se alguém julga os outros assim, deveria guardar a opinião para si. Além de não ter absolutamente nada a ver com a aparência da outra pessoa, ficar falando por trás (ou na frente da pessoa mesmo) mostra arrogância e um sentimento de estar acima da razão.

A questão da homosexualidade é outra. Algumas pessoas são contra por motivos religiosos ou filosóficos, dos quais discordo totalmente mas consigo entender um pouco, pelo menos. Agora a grande maioria é contra, ou mostra sinais de homofobia, simplesmente por ser uma parada diferente, algo que não se vê (ou se via) tanto nas ruas. Se você é homofóbico, para pra pensar: você cria um sentimento ruim dentro de você porque outra pessoa, que na maioria das vezes você nem conhece, resolveu que vai se relacionar com alguém do mesmo sexo. Ou seja, você não tem ABSOLUTAMENTE NADA a ver com o caso, e ainda assim se incomoda. Isso faz sentido pra você?

Pra mim, não faz sentido algum. Por isso acho que cada um deve fazer o que lhe faz mais feliz. Se é um moicano rosa, se é se pintar de preto, se é namorar com um gordinho, se é jogar jogos que parecem infantis, se é amar alguém do sexo A ou B, não é da nossa conta. Ficar falando da vida alheia me parece um recurso mental para esquecermos momentaneamente das nossas próprias vidas quando não estão muito boas.

Quando você perceber que está louco pra cuidar da vida alheia, é sinal de que sua própria vida merece um pouco mais de atenção.

Tentar saber mais sobre a vida de quem você gosta não é problema. O problema surge quando sua motivação é achar algo de ruim, algo pra falar mal, ou razões pra ficar dando pitacos não construtivos na vida de outra pessoa. Ler um bom livro, aproveitar as pequenas coisas da vida, viajar, curtir e fazer o que se gosta - se o problema é tempo livre demais, há diversas formas de melhor utilizá-lo.

Mas bora combinar uma coisa: se já estivermos felizes, ótimo, agora deixemos os outros serem também. Se não estivermos felizes, é hora de concentrar nas nossas próprias frustrações e deixar os outros seguirem suas vidas, beleza?


DÊ PITACO sobre o post. Aqui é diferente, curto pra caramba ouvir a opinião de quem lê. Pode comentar como anônimo, não dá nada! Concorda com o que eu falei sobre cuidar da vida alheia? E não esquece de papear qualquer coisa comigo lá no twitter! ;))


8 comentários:

  1. Vontade de imprimir esse texto e distribuir por aí, porque olha... Muita gente tá precisando. E o mais legal é que normalmente quem mais prega o tal do "parem de cuidar da minha vida" é quem mais dá pitaco na dos outros hahaha. Povo estranho.
    Já me importei muito com opinião dos outros. Hoje, no auge dos meus 26 anos, quase 27, finalmente aprendi a tocar o foda-se. Aprendi a parar de dar bola pra quem acha que devo alisar os meus cachos, pra quem acha que estou muito gordinha e preciso emagrecer "por saúde" (mas pagar minha academia e o nutricionista ninguém quer, já que estão tão preocupados)... E também aprendi a julgar menos os outros. Se a pessoa está feliz, quem somos nós pra dizer o contrário?
    Enfim, belo texto :)

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    1. Perfeito o seu comentário. Também já me importei muito com a opinião dos outros, mas hoje dou valor só quando a opinião faz sentido. Em relação a aparência, por exemplo, não dou a mínima quando alguém vem encher o saco.

      Obrigado pelo comentário, Gabriela! ;))

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  2. "Quando você perceber que tá louco pra dar pitaco na vida alheia, é sinal de que sua própria vida merece um pouco mais de atenção." hahaha adorei! Se todo mundo tivesse essa percepção, com certeza viveríamos em uma sociedade imensamente mais feliz.

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  3. Seus textos são ótimos, gostaria de ver mais gente com bom senso e maturidade como você.Abraço.

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    1. Que maravilha ouvir algo assim, muitíssimo obrigado! ;)

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  4. Pra essas situações, existe um provérbio polaco muito bom: "Não é meu circo, não são meus macacos."
    Sempre antes de julgar alguém eu lembro de:"Faça o que quiser desde que não prejudique aos outros ou a si mesmo."
    Se a pessoa quer fazer algo desde pintar o cabelo de verde ou cometer incesto, eu tenho que lembrar que isso não me afeta e que se eu estivesse no lugar da pessoa, não ia gostar que me julgassem.
    Posso falar, distribuir panfletos sobre:
    "Não fumem, dá câncer."
    "Comam legumes"
    "Façam exercícios fisicos"
    Mas, se a pessoa não quiser ela não vai fazer.
    Não podemos controlar os outros.

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    1. Oi Clara! Eu particularmente não gosto desse provérbio, lugar de bicho é no seu habitat natural, não escravizado num circo. De qualquer forma, acho que tem uma diferença grande entre não julgarmos decisões que são exclusivamente da pessoa, como pintar o cabelo ou se relacionar com o sexo X ou Y, e darmos conselhos que notavelmente são benéficos para qualquer um, como não fumar e se exercitar. Mas de fato, temos que deixar os outros fazerem o que quiserem sem jukgar. Cada um no seu quadrado, como diz a sábia cultura popular brasileira haha :))

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