Cansei, não vou mais discutir

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Cansei de discutir

A discussão e a troca de ideias são fundamentais para o desenvolvimento da nossa civilização, sem dúvidas. Leis, avanços tecnológicos e descobertas da ciência só foram possíveis através do embate de ideias entre pessoas que acreditavam em coisas totalmente opostas. Mas isso talvez se aplique somente a partes mais complexas e importantes da nossa existência como espécie. Quando a discussão é em níveis mais baixos, cansei de discutir.

Falo daquele seu familiar que tem uma visão política totalmente diferente da sua e brada argumentos infundados no almoço de família. Daquele amigo que tece teorias incríveis baseadas no achismo, sem argumentação ou mero vislumbre de fatos concretos. Da conversa acalorada no bar sobre cotas, aborto, legalização da maconha ou qualquer outro assunto polêmico. Dos posts sensacionalistas na rede social azul. Nesses casos, já não tenho mais saco pra conversar.

Parece que perdemos a capacidade de reconhecer erros próprios e de aceitar ideias novas. Temos uma resistência absurda em ouvir o que não queremos ouvir e parece impossível que um "você está certo" saia da nossa boca. Não conseguimos admitir que o outro lado está correto nem em algum ponto específico, tudo que fulano fala está errado. As conversas na mesa de bar ou no almoço de família parecem intermináveis: um jorro eterno de argumentos - muitas vezes não fundamentados - dos dois lados. Eu não cedo, você não cede. A pessoa desembarca na discussão com sua ideia bem formada e na hora de ir embora o faz com o pensamento intacto, pois seu pensamento foi e continua blindado para que não seja alterado nem mediante aos mais factíveis e perfeitos argumentos. Discutir não vale a pena.

Obviamente não defendo que todos devam se curvar às ideias e formas de pensar dos outros, mas creio que devemos nos apegar às nossas ideias apenas à medida que o apego faça sentido. Ponderar ideias e analisar criticamente argumentos próprios e contrários deveriam ser atitudes acima de qualquer orgulho ideológico. E que os argumentos usados sejam embasados, porra. "É sabido que", "li uma manchete" ou "ouvi dizer que fulano falou" são aceitáveis se o papo é acerca de uma banalidade qualquer. Se eu e você estivermos discutindo algo a sério, peço que no mínimo fale do que sabe. Não é válido tecer absurdos verbais, demonstrando firmeza oratória por fora mas não tendo certeza de nada por dentro, com o único intuito de defender cegamente um ponto de vista.

Cansei de discutir
Reação frente a certos argumentos
Todos tem direito à opinião e adoro a internet por prover um meio para que todos tenham voz. Mas isso não deveria nos garantir o direito de falar absurdos e julgar os outros acerca de assuntos que não conhecemos. Não posso querer discutir engenharia espacial de forma séria porque não entendo porra nenhuma de engenharia espacial. Da mesma forma, não posso querer criticar políticas econômicas se não faço a menor ideia das mínimas relações básicas entre juros e inflação, digamos.

Não me importa o uso de qualquer artifício argumentativo quando a conversa não é tão relevante, quando estamos jogando papo fora, mas me incomoda quando o assunto é sério. E aí surge o paradoxo. Se creio que possuo argumentos que invalidam argumentos alheios, deveria me sentir quase na obrigação de tentar discutir, não para impôr ideias, mas para contribuir com a discussão e tentar agregar conhecimento. O problema é que quando não temos bons argumentos, ainda assim costumamos nos apegar aos nossos argumentos pobres, nos sustentando na criação de mirabolantes teorias e nos baseando em falsas informações. Cresço ouvindo que tal coisa é ruim, que a outra coisa é ideal e repito isso para sempre, poucas vezes pensando criticamente em porque eu penso daquela forma. Mesmo sem argumentos, continuo acreditando em coisas simplesmente porque sempre acreditei nelas. É a inércia ideológica.

Seria saudável mudar. Se não tem certeza de alguma coisa, diga que acha aquilo, não afirme que é. Diga que tal coisa talvez aconteça, não que acontecerá. Explique os seus motivos. Cada um de nós vem de uma realidade diferente, alguém pode não ter a menor ideia ou sequer entender minimamente o porquê de você ter certos argumentos - vamos tentar nos colocar mais no lugar dos outros. Muitas vezes ideias distintas não são diametralmente opostas. Você pode estar certo em alguns pontos, a outra pessoa em outros. Ouvir expande nossa consciência e nos torna mais sábios à medida que buscamos entender ou pelo menos ficamos cientes da existência de outras formas de pensar. Discutir não significa apenas desqualificar as ideias alheias e trabalhar para mostrar a superioridade das suas.

Mas esse último parágrafo normalmente não representa o que acontece no mundo.

Se discordamos muito em um assunto importante, muitas vezes rebaixamos o outro. Talvez você ache que meus argumentos são de gente ignorante e que sou alienado, talvez eu ache que você mistura as coisas e que é preconceituoso, por exemplo. E quando achamos essas coisas uns dos outros, erguem-se as enormes barreiras que impedem a aceitação de qualquer argumento vindo do outro cidadão.

Raramente dão algum fruto as discussões mais sérias que temos - e na internet isso se intensifica.

É triste, mas assumo. Eu cansei, não vou mais discutir.

Cansei de discutir no Facebook


Se concorda comigo, não esqueça de mandar esse texto para aquele amigo ou conhecido que sempre decepciona quando começa a falar! ;)

E você, como lida com ideias e argumentos opostos aos seus?


14 comentários:

  1. VOCÊ FALOU EXATAMENTE O QUE EU PENSO HAHAHA. Cara, é tanta gente discutindo sobre coisa que não sabe e se achando o dono da razão que muitas vezes me irrito. Prefiro mil vezes ficar calada a tentar conversar com alguém que não concorda e não quer ouvir o que os outros têm a dizer.
    Texto muito bom!

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    1. Não é?

      Valeu por comentar, Letícia! ;)

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  2. Texto primoroso, pra variar, Pedro.
    Eu realmente evito entrar em discussões porque na maioria das vezes eu sei que vai ser um embate com argumentos que podem ser até muito bem elaborados, mas implicitamente é uma disputa infantil de egos para mostrar quem é o melhor (intelectualmente).
    Quando eu tenho uma opinião não bem formada sobre algo, tento sempre colocar ela em xeque. Sempre procuro ler algo que contradiga o que eu penso e isso me ajuda a ter mais discernimento. Tenho uma premissa de que se eu for me juntar a uma discussão e não estiver disposto a mudar o que eu pensava anteriormente, é total perda tempo.
    Hoje em dia, parece que há uma pressão pra que você tenha opinião sobre tudo, ficar em silêncio não é mais aceitável. Daí então a galera fala o primeiro pensamento mais superficial que vem à cabeça.
    Enfim, Pedro. Assino embaixo do que tu escreveu.

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    1. Muito boas as suas ponderações, Neto! Adorei a sua premissa de ir pras discussões aberto a mudar de ideia. Se não possuímos uma mínima abertura, de fato qualquer argumentação se transforma na disputa de egos que você citou, com cada um querendo provar que está mais certo que o outro. Por isso que discutir, às vezes, cansa. Valeu por passar por aqui! ;)

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    2. E eu assino embaixo do que você comentou Elmo!

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  3. Porran, muito bom. Eu evito papos mais sérios e qualquer tipo de discussão. Sempre que eu entro em uma, é sobre futebol ou videogames, então não leva a nada.

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    1. Somos 2. Na verdade cada vez mais vejo esse comportamento das pessoas de estarem cansadas de discutir, principalmente quando o assunto é política. Valeu pelo apoio, cara!

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  4. Acho que se trata daquela questão já conhecida e discutida da liberdade inconsequente ou do anonimato na web, isto é, qualquer pessoa pode falar o que quiser e da forma que bem entender. Quando estamos em outros contextos, como o acadêmico por exemplo, nossas palavras já ganham um outro peso e aí sim pensamos duas antes de falar qualquer coisa, pelo medo de passar vexame na frente dos outros por não ter embasamento ou fundamento suficiente do que se fala. Mas as redes sociais já não existe essa responsabilidade, aí os palpiteiros crescem e inflam demais, se tornam formadores de opinião... Até mesmo os mais moderados e com uma postura mais conciliatória talvez não conheça como de fato seria um debate sério. Quando me deparo com um argumento oposto, pelo bem da discussão e embate de ideias, marco minha opinião e saio, quem quiser concordar bem, quem quiser discordar também fique a vontade, mas não fico preocupado, aproveitem minha opinião como bem entender, ou simplesmente a descartem kk, mas não me furto em dizer a verdade ou colocar uma opinião perfeitamente válida.

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    1. Perfeita a observação, Darley. Esse é o lado negativo do anonimato na web. Lembro que em 2013 começamos a ver algumas pessoas na rua pedindo a volta da ditadura militar. Seja de qual lado a pessoa fosse nesse fla-flu político que vivemos hoje, aquilo chocou a maioria. Hoje já se perdeu o medo e a vergonha de falar qualquer tipo de absurdo online, incluindo desejos de morte, de violência e insultos de todos os lados. De fato as pessoas não se comportariam dessa forma no mundo real, mas acabam formando opiniões online. Só um exemplo.

      Obrigado por passar por aqui e contribuir, como sempre! Abraço!

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    2. "Quando me deparo com um argumento oposto, pelo bem da discussão e embate de ideias, marco minha opinião e saio, quem quiser concordar bem, quem quiser discordar também fique a vontade, mas não fico preocupado, aproveitem minha opinião como bem entender, ou simplesmente a descartem kk, mas não me furto em dizer a verdade ou colocar uma opinião perfeitamente válida."

      Exato. Me permita adicionar algo a esse trecho do seu comentário, por favor.

      Sabe quando me sinto assim ? Quando sendo uma entusiasta da Educação e Comportamento Animal, Biologia e Medicina Veterinária faço um comentário sério sobre um vídeo que gerador de likes.

      A pessoa vê uma cena engraçada e é natural que acabe rindo, mas aquela situação é resultado de uma enfermidade (sequela, manifesto, sintoma) e eu posso acabar cortando o barato fazendo a observação.

      Eu sinto que minha intervenção gera o ar "Ih... já veio a chata com os argumentos científicos que ela coletou na internet" (Sim, ainda não possuo formação na àrea e o post fica bem com essa cara pra muitos).

      Juro que me divido. Uma parte minha diz que é melhor levar o conhecimento mesmo num momento não ideal e matar "a graça da coisa" a que deixar o riso solto diante de um quadro de doença. A outra, ofendida, me pergunta: "Qual o motivo de perder tempo com isso e pra isso ?"

      Eu admito que ainda não sei, mas o seu comentário acrescentou algo aqui. Pode acreditar.

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  5. Uma ótima matéria. Sobre não semear onde não deve brotar nada de fato.

    "... parece impossível que um "você está certo" saia da nossa boca..."
    Acho que ainda que saia nunca será em proporção igual ao que desejamos lá no fundo: ouvir do outro na quantidade que nos deixe confortáveis para nos sentirmos "os donos da verdade". Desejamos achar que estamos, sentir e que o outro reconheça (além de tudo!) que estamos certos. E acabamos não ofertando isso como se fosse um item valioso demais e para doar especialmente quando ninguém gasta "o seu" com você.

    "Não é válido tecer absurdos verbais, demonstrando firmeza oratória por fora mas não tendo certeza de nada por dentro, com o único intuito de defender cegamente um ponto de vista."
    Eu sempre tive dificuldade para defender meus argumentos, especialmente quando chego a acreditar realmente que ao discordarem deles estão me atacando diretamente. Sim! Isso acontece, numa escala pequena e bem menor hoje por conta de reflexões e desejo de mudança, mas ainda acontece. Não somos nossos argumentos apesar de defende-los como sendo "nossos dodóis" e para reafirmarmos nossa crença a cada nova oportunidade. É tenso, pode ser triste e até doloroso ...

    "Ouvir expande nossa consciência e nos torna mais sábios à medida que buscamos entender ou pelo menos ficamos cientes da existência de outras formas de pensar."
    Muito amor essa parte, acho que é a frase mais bacana de toda a matéria. Me remete a ideia de "Dois ouvidos e uma boca por uma boa razão". Acho que sou uma ouvinte muuuuito deficiente ainda.

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    1. Muito legal seu comentário, Grey, principalmente por você se considerar alguém que leva uma discussão de argumentos para o lado pessoal às vezes. De fato identificar nossas falhas e ter vontade de mudar são os primeiros passos pra alterar as coisas. Mas vendo a ponderação na sua escrita, creio que não terá problema algum em mudar para melhor. Muito obrigado por contribuir para a discussão aqui! ;)

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  6. Excelente texto! Acho que essa frase resume bastante o que vem acontecendo: "Discutir não significa apenas desqualificar as ideias alheias e trabalhar para mostrar a superioridade das suas.". Estamos o tempo inteiro preocupados em desqualificar qualquer coisa ou argumento que não seja o nosso e até quando tentamos trabalhar para mostrar a superioridade dos nossos, nos baseamos em ideias superficiais. Criamos um sistema de competitividade no qual o mais importante é o ego e o poder. A nossa sociedade está muito líquida... Nos sentimos especialistas e prontos para criticar e julgar lendo notícias (mesmo que diariamente) de um único jornal.

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    1. Perfeito, Sâmila! Quando começamos a discutir já preparados pra guerra, sem respeitar o outro lado, ninguém ganha, principalmente quando a argumentação é rasa. Obrigado por comentar aqui!

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