Relato sincero de uma crise de ansiedade

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Foto: Moritz Schumacher.

3 dias antes

Estou nervoso demais e penso continuamente na reunião. É a mais importante da minha vida. Uma reunião que pode definir meu futuro profissional e me dar uma bela estabilidade financeira. Se o contrato for assinado, tudo pode mudar pra mim.

Meu nervosismo não é nem sobre conseguir convencer o cliente a contratar meus serviços. O contrato será assinado, isso já foi definido. O meu medo vem da situação. Me sinto como uma criança indo fazer coisa de gente grande.

A empresa tem altas expectativas sobre o trabalho que vou fazer pra eles e acreditam que minha participação pode ser determinante no crescimento do negócio. Eles são da área financeira, normalmente mais conservadora e lotada de gente endinheirada e que usa terno. Nunca tive dinheiro e sempre odiei terno. Fico me imaginando entrando numa sala de reunião com uns 10 executivos de gravata, e tendo que mostrar ali meu conhecimento, provar que tudo o que falei antes, para convencê-los a me contratar, é verdade. Meu coração dispara um pouco só de pensar. Fico com medo de chegar lá e não saber mais falar inglês.

O desconhecido também tem um papel forte na ansiosidade. A reunião não é em um lugar familiar, é na Estônia. Eu nunca estive na Estônia, nunca conheci alguém da Estônia e não sei nada sobre a Estônia. Será que eles são gentis ou grossos? Vão me tratar bem ou a relação será fria e meramente profissional? Eles confiam em mim ou são desconfiados? O que acham de um brasileiro tentando provar que é a melhor pessoa para aquela tarefa?

Também não conheço nenhuma das pessoas com quem me reunirei. Será totalmente no escuro. Eu não fui até eles, eles que me acharam no LinkedIn e depois de 2 ou 3 conversas, sem vídeo, lá vou eu enfrentá-los de frente. 10 caras engravatados me olhando com cara de julgamento, é o que sempre vem na minha cabeça quando eu mentalmente entro no escritório.

Foto: Unsplash.
O problema é que não posso chegar lá como uma criança com medo do desconhecido, como um adolescente achando que está numa reunião muito grande para o seu próprio tamanho. Sou um homem, vendendo meus serviços e querendo ser muito bem pago para isso. Preciso chegar de cabeça pra cima e falar com confiança sobre o que eu sei. Só.

Só? Não parece muito, mas parece muito.

Agora preciso comprar uma roupa minimamente social, porque não tenho nenhuma. Sou o cara da calça jeans, camiseta e tênis todo arrombado. Eles são os caras dos ternos. Terno não vou usar, já decidi, mas preciso me adequar minimamente ao ambiente com um tênis não rasgado e uma camisa social pra usar por fora do jeans. E preciso me adequar minimamente à mentalidade certa que uma situação como essa exige. Sou um adulto de quase 30 anos e não tenho mais como fugir da responsabilidade. Preciso encher o peito e encarar.

2 dias antes

Comprei um tênis novo. É normal, mas branco e limpo pra passar uma imagem melhor. Eu decidi não ligar tanto para minha aparência, mesmo indo para o covil dos enternados, mas o estado do meu tênis anterior estava crítico. Parecia uma desleixado mesmo. Peguei também uma camisa social, que não tinha aqui, pra ficar minimamente dentro do clima por lá. É bem simples e justinha, dá uma pitada de formal num look de adolescente casual. Incrível eu estar falando de vestimenta, algo que procuro não ligar tanto desde que EU esteja me sentindo bem, mas a situação me fez pensar nessas coisas. Vou semi-arrumadinho!

A ansiedade continua a mil. Penso na viagem/reunião dezenas de vezes todos os dias. Penso no que vai acontecer e a mente automaticamente busca situações ruins. Não vou saber o que falar, vão me fazer perguntas que não saberei responder, vou tremer e gaguejar. Meus 28 anos de vida me ensinaram que essa atitude é simplesmente irracional. Provavelmente nada disso vai acontecer e, se algo acontecer, não adianta nada eu ficar dias me preocupando com antecedência. Isso eu sei, mas é mais forte que eu. Do mesmo jeito que alguém não pode escolher parar de amar alguém, é algo que vem de dentro, eu não consigo simplesmente me olhar no espelho e me mandar parar de ficar nervoso. Eu simplesmente fico. As pernas batem, o coração acelera e a preocupação assola, só de pensar. Que dispositivo mental usar para me preocupar menos eu ainda não consegui encontrar.

Tá chegando.

1 dia antes

Que nervoso. Tá chegando. Nem fui dormir e em menos de 5 horas tenho que estar de pé pra ir lá, na Estônia, ter a reunião mais importante da minha vida.

Fiz a barba, arrumei a mochila. Pesquisei bastante sobre o negócio da empresa, sobre a empresa. Reli os e-mails e mensagens que troquei com eles até hoje. Fiz anotações, escrevi ideias. Mesmo assim me sinto despreparado. Os caras me acharam online e querem me contratar pagando um dinheiro bom. Estão me levando pra Estônia com tudo pago pra que eu preste meu serviço. Mesmo assim, parece que estou indo pelado para uma sessão de apedrejamento. A ansiedade é tanta que parece passar de níveis aceitáveis. Meu lado racional tenta levar tudo numa boa, sei que o certo é ficar tranquilo, mas como um músculo involuntário, a minha mente faz tudo errado. Pensa besteiras e faz minhas pernas baterem no chão incessantemente. Meus dedos são comidos. E a preocupação vai tomando conta como uma gaveta cheia de trecos que não cabe mais nada.

Agora é dormir. Assim que eu acordar não tem mais volta, no momento que eu colocar o pé para fora deste apartamento estarei a caminho de lá. Veremos no que vai dar. Nunca senti tanta vontade de levar alguém de confiança comigo, de ter minha esposa por perto. Mas estarei sozinho. Boa sorte pra mim.

No dia

Casa, aeroporto, Letônia, Estônia, escritório.

Em nenhum momento desse translado eu fiquei mais tranquilo. Continuei nervoso à beça, mas sobrevivi. Entrei no prédio, pedi informações. Achei o elevador. Apertei o andar certo. Cheguei na porta da empresa. Respirei fundo e toquei o interfone.

E como era de se esperar, tudo ocorreu sem problemas. Fui recebido com um sorriso no rosto e logo me levaram para uma sala, onde um rapaz sozinho, sem terno, me ensinou mais sobre a empresa e o negócio. Tudo de forma bem mais informal do que eu imaginava, com direito a papo jogado fora e piadinhas. Ele era jovem como eu.

Aí veio o contrato. Nada demais. Me deram os papéis, que eu já tinha lido com antecedência, e uma caneta. Rabisquei e rabisquei, páginas e páginas, e pronto. Minha contratação estava garantida. Teria uma estabilidade financeira boa pelos próximos meses. Nesse momento o peito desinflou um pouco. Bateu uma tranquilidade momentânea. Tava tudo dando certo, sem pressão exagerada, sem ternos, contrato assinado. Contrato assinado!

Me levaram para conversar com meu futuro chefe e a pegada seguiu a mesma, tudo tranquilo. Com simpatia, conversamos mais sobre minhas tarefas, sobre a empresa, sobre as expectativas. Fomos almoçar e o cara pesquisou com antecedência um restaurante vegano pra me levar. A comida tava excelente, tudo pago pela empresa, e jogamos papo fora.

No final do dia, no hotel, olhei pra fora da janela do quarto e me bateu uma paz imensa. Trabalho concluído. A neve até perder de vista na rua, por cima dos carros e cobrindo as árvores, também ajudou. Um banho quente e deitei na cama com uma tranquilidade absurda. Dormi bem demais.

O dia seguinte foi semelhante, com papo no escritório, uma volta na bela Tallinn, capital da Estônia, e volta pra casa. Tudo tranquilo, tudo certo. Tudo funcionou.

Enquanto eu esperava meu avião, tomando uma cerveja no saguão do aeroporto e lambusando meus dedos no óleo da batata frita, só conseguia pensar: por que diabos fui ficar tão nervoso?

Tallinn estava assim.


Se você caiu aqui de paraquedas, oi! :) Se você era leitor do blog nas antigas e se pergunta por que ele está abandonado, mudei meu foco totalmente para o YouTube. Possuo 3 canais com algum tamanho e tento botar minha energia lá. Através de um emprego eu aprendi muito sobre a plataforma e acabei conseguindo muito mais retorno sobre o meu trabalho executando-o em vídeo do que em texto. Uma parte de mim ficará pra sempre triste que esse blog está em processo de falecimento, lembrará com carinho da época em que eu conseguia postar textos longos toda semana. Mas a outra parte encara como o fim de um ciclo, onde outra porta se abriu e eu me joguei com tudo. Se quiser continuar em contato com meu trabalho, olha o meu canal e me segue lá no twitter. Obrigado por ler até aqui :)


Um comentário:

  1. Eu quase tive um troço lendo, fiquei com ansiedade, aah, mas ainda bem que deu tudo certo no final

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