Julgando pessoas e coisas

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Eu dizia "só experimenta". Ela se negava. Não gostava muito de cebola, mas eu sabia que era só uma questão de provar de novo. Quando era pequeno, eu também não gostava do "crec" que às vezes dá quando a gente morde uma cebola. Aprendi a curtir esse alimento maravilhoso com o tempo. Agora era a minha vez de fazer o papel que a minha mãe fez comigo e incentivar a patroa a comer. Tipo, a parada é MUITO boa. Como que alguém pode não gostar? Ontem fiz uns sandubas com cebola CRUA - que fica de molho na água pra tirar o ardor, sabe? - e ela adorou. Os tempos já mudaram e o preconceito dela com cebola foi pro espaço.

Pra comer cebola ou outras coisas "horríveis" como salada e brócolis, na hora de negar um convite pra fazer alguma coisa porque achamos que não vai ser legal, pra julgar alguém sem conhecer: o fato é que, mesmo sem ter base ou argumentos para isso, muitas vezes criamos pré-concepções nas nossas cabeças que tem efeitos negativos em nossas vidas.


Perdemos oportunidades

Na China, demorei mais de 1 ano pra experimentar a raíz de flor de lótus, que eles comem muito por lá. Isso porque o bagulho é cheio de furos no meio e na maioria das vezes fica com uma cor meio amarronzada. Tinha uma aparência estranha aos meus olhos.  Acabei comendo e no final a parada tinha meio que um gosto de batata, bem de boa. Perdi inúmeras chances de aproveitar as diversas vezes que esse rango tava disponível pra mim.

Raíz de Flor de Lótus - Culinária Chinesa
Raíz de lotus: chineses comem muito, geralmente refogada ou na sopa

Os casos da cebola e da raíz de flor de lótus são apenas dois, mas tenho certeza que você conhece alguém que também tem preconceito com alguma comida, ou de repente você mesmo tenha. Eu sempre tive.

Primeiro era com cebola. Depois, com a proteína de soja que meu irmão botava em cima da pizza. Mais tarde, com todas as partes imagináveis de animais que meu pai curtia comer: orelha, pé, joelho, moela e por aí vai. O cara bota na cabeça que é ruim, ou que é nojento, e nunca experimenta. Ou pior: às vezes prova quando é bem criança, não gosta, e assume pro resto da vida que o negócio é ruim. Por sorte, minha inclinação geral à ter uma cabeça aberta respingou na comida. Passei a experimentar todas essas coisas e a gostar de muitas delas. Na verdade, hoje em dia adoro experimentar comidas novas, mesmo que a cara não seja muito boa. Com as partes de animais preparadas pelo meu pai o tiro saiu pela culatra: hoje não como carne. Mas pelo menos, naquela época, acabei provando de tudo e sentindo que nada tinha um gosto tão ruim como minhas pré-concepções alertavam.

E esse lance não rola só com comida.

Já inventei todo tipo de desculpas pra não fazer coisas novas. Convidado pra uma festinha de um desconhecido, por exemplo, pensava que não conhecia ninguém lá e que ia ser chato. Pensava que não conhecia o local, não sabia como chegar e esse era mais um motivo pra eu não ir. Ou deixava de falar com uma pessoa porque achava que ela não teria muito a acrescentar no meu dia - "melhor botar meu fone". Ou não jogava um jogo por parecer meio infantil. Mas a surpresa é que além da cebola ser gostosa, a interação com desconhecidos na festinha ou o jogo infantil também podem ser agradáveis. As ideias que temos antes mesmo de experimentarmos algumas coisas acabam nos privando de experimentá-las e, quem sabe, gostar delas. O mundo é de uma pluralidade incrível, então pra que fazer sempre o mesmo?

Além da perda de oportunidades, outra consequência negativa pode ser derivada desses pré-julgamentos quando os direcionamos pra outras pessoas.


Somos injustos

"É muito burro porque não convoca o fulano", "Firmino é meia, é estupidez botar pra jogar de atacante na seleção". Vamos combinar, nem eu nem você somos fãs do trabalho do Dunga como técnico, mas a quantidade de gente que julga e xinga o cara (ou qualquer outro treinador de futebol) é imensa. E o pior é que muitas vezes tais julgamentos são baseados em nada. Não há argumentação.

O assunto do post não é futebol, mas só pra concluir o exemplo, poderíamos fazer diversas perguntas pra esses corneteiros de plantão:

Você sabe os critérios que o Dunga usa pra convocar seus atletas?
Sabe as características que ele quer e as que não quer em cada jogador?
Sabe como é o relacionamento do fulano dentro do grupo, como ele se comporta?
Sabe dizer se o Dunga conversou com o Firmino para trocá-lo de posição em campo?

Provavelmente o corneteiro diria não pra todas essas perguntas. Mas ao invés de questionar, de buscar entender o assunto, em geral enche a boca pra xingar o técnico da seleção da CBF, como se quem tivesse décadas de experiência no ramo fosse ele, o corneteiro. E exemplos semelhantes acontecem com nós mesmos, no papel do corneteiro, diariamente.

Julgando treinadores de futebol - bastidores do futebol
Andei lendo esses 2 livros e a real é que não sabemos nem de metade das coisas que rolam nos bastidores do futebol. O Soriano diz que trabalhar no ramo é "trabalhar num aquário", com todo mundo vendo e julgando.

Talvez sem a parte dos xingamentos, é verdade. Mas quem não largou um "que ridículo", mentalmente, após ver alguém vestido de forma bizarra na rua? Ou nunca odiou certas atitudes do chefe sem de fato saber porque o cara fez aquilo? Ou não julgou a menina bonita que namora um cara feio? Ou não julgou aquele conhecido que é porteiro, ou entregador de pizza, sem saber que muitas vezes ele é mais feliz do que um empresário ricaço. Ou quem nunca ficou puto com alguém por ter feito uma coisa e depois descobriu que as intenções da pessoa na verdade eram boas? Tento julgar os outros o menos possível, mas é fato que eu, você e provavelmente a maioria da população fazemos essas coisas com alguma frequência. Muitas vezes sem ao menos conhecer a pessoa em questão, sem saber o que ela pensa do mundo, sem saber quais são suas motivações.

Quem julga as pessoas não tem tempo para amá-las - Madre Teresa
Também não precisa amar todo mundo, né?! Mas você sacou a moral da história
Julgar aparências, atitudes, decisões e caráter das pessoas sem ao menos ouvi-las, sem saber as reais motivações por trás das coisas, não só é prepotência da nossa parte como traz malefícios para as nossas vidas - e por que não dizer pro mundo?

Podemos: a) magoar uma pessoa que não merecia ser magoada; b) deixar de trocar ideias ou se envolver com gente legal; c) passar atestado de cuzão por julgar os outros sem motivo.

Catei alguns depoimentos pra provar que as coisas em geral são diferentes do que pensamos que elas são antes de conhecê-las.


Relatos

A ideia para este post veio do Reddit, portanto busquei lá alguns depoimentos de pessoas aleatórias que possam contribuir pra discussão. A pergunta é mais ou menos essa:


"O que você nunca entendeu de verdade até que foi lá e experimentou pela primeira vez?"


1. "Nunca entendi como tantas empresas de melhoria de casas conseguiam se manter sem falir, até que comprei uma casa..."

Quando não entendemos bem uma realidade específica, tendemos a desconfiar das coisas, odiá-las ou ridicularizá-las.


2. "Amor verdadeiro. Nunca entendi por que era tão aclamado, até que o amor me atropelou como um trem de carga."

E tem gente que ainda te julga quando você prefere assistir um filminho com a sua amada do que ir pra balada beber com os solteirões. Viva o atropelamento por trem de carga!


3. "Estar desempregado. Ao contrário do que eu pensava, sim, é possível passar o dia inteiro correndo atrás de um trampo e não receber nenhum telefonema de volta, mesmo não sendo exigente."

Podemos questionar, podemos tentar ajudar, mas não deveríamos julgar os esforços dos outros sem saber sobre o assunto. Um dia podemos estar no lugar dessas pessoas e sentir na pele o que é de verdade.


4. "Depressão. Nunca pensei que existisse de fato. Pensava: 'Por que essas pessoas não dão uma animada, fazem algo alegre?' Mas depois de 2 anos lutando contra a depressão, agora entendo o quão difícil é."

Não julgue sem saber a história por trás. Você pode achar que entende o que tá acontecendo, mas não entende.


5. "Ficava incrédula com sexo. Parecia bem ruim e doloroso pra mim. Não tinha ideia de como alguém poderia gostar. Até que um dia arranjei uma piroca e percebi que não é nada mal".

Essa pessoa recebeu várias "curtidas" no comentário dela e uma resposta de um cara dizendo o contrário, tipo "pensei que era muito melhor do que é". haha :)


Julgar menos

Uma vez vi um desses caras famosos do twitter dando RT em algo que era tipo: "Pô fulano, sempre achei que fosse um mala, mas você é gente-boa pra caramba!". Quando você julga alguém sem motivo, o julgamento diz mais sobre você do que sobre a pessoa julgada. Diz sobre suas inseguranças, suas necessidades, seu caráter e mentalidade.

Então bora julgar menos os outros. Vamos focar em perguntar mais, trocar mais ideias, buscar conhecer antes de falar. Ou se não tiver com vontade de saber mais, tiver com preguiça, é só ficar na sua, sem julgamentos. Se for pra julgar, que seja com base em alguma coisa, com argumentos, não com o vazio.

Sou o único consciente nesse mundo de carneirinhos
Não achei o autor original da ilustração. Adaptei pro português.

E experimente aquele purê de abóbora da sua vó, aquele brócolis refogado que rola no buffet onde você sempre come, jogue Angry Birds sem medo que é divertido pra caramba, bata um papo com aquele hippie dreadlock que senta no fundão da sua sala. Vem comigo nesse esforço constante de manter a cabeça aberta para coisas novas! Sem julgamentos! ;)






SE QUISER, ME JULGUE! Mas não vou deixar de pedir pra você comentar aqui embaixo. É muito importante saber o que a galera acha das coisas que escrevo. Nem que seja como anônimo, ou que seja um simples "Li", já conta pra caralho! Ou se preferir, fala comigo no twitter! Tô sempre nerdiando por lá ;))


12 comentários:

  1. Vim ler através do link no Twitter. Cara, sensacional! Continue a escrever para sempre e mais cem anos. Sempre achei interessante observar as pessoas e escutar seus julgamentos e convicções. Você traduziu o que eu não conseguiria explicar: o como é legal vê-las saindo da pupa e voando para um mundo de experiências novas.
    Obrigado pelo texto, foi um banho de palavras quentes que renovou meu espírito. :)

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    1. Poxa cara, muito obrigado mesmo pelas palavras!

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  2. Julgar é inevitável, julgamos o tempo todo. Tem uma frase do Rust do True Detective que gosto muito: "Look, as sentient meat, however illusory our identities are, we craft those identities by making value judgments: everybody judges, all the time. Now, you got a problem with that... You're livin' wrong".
    Construímos nossas identidades, principalmente a moralidade, com base em julgamentos. O que importa é que sejam julgamentos fundados e lógicos como disse.

    Com comida, eu super concordo. Comeria olho de boi, escorpião frito, carne humana (mentira, só se tivesse perdido com um grupo que concordasse que quem morresse serviria de alimento para os outros) — viajei demais agora, foi mal.

    Em relação a interações sociais, eu tenho um sério problema com isso, talvez com base em meus julgamentos preconceituosos, já que nunca me permito viver situações que elas ocorrem.
    Faz tanto tempo que nem sei como funciona mais. Prefiro ficar com o fone mesmo. Sério não sei como é, uma relação (seja ela qual for) surge assim do nada? Conversando com a pessoa?
    Em filmes, vejo pessoas abordando outras em bares e parece só coisa de filme mesmo, fora da minha realidade.
    Evito isso, julgo que ninguém quer realmente conversar, pois sei como é, fui/meio que sou assim pela minha vida inteira.
    Já tive amigos no ensino médio, demorou 3 anos para que pudesse considerá-los assim, mas já tive sim. A amizade morreu, como todas as outras que surgirão em minha vida. Para mim, já não faz mais sentido, apesar de às vezes me sentir bem solitário.
    Por isso fiz um julgamento justo e decidi parar de me preocupar com essas coisas. Acho que jamais compreenderei isso, então, tentarei aproveitar minha jornada até os fins de meus dias sozinho, mas não solitário.

    De qualquer jeito, festas no geral, independente se conheço as pessoas ou não, são um inferno.
    Desculpe pela enorme confissão.

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    1. O que você não percebeu é que fazer um comentário bacana assim num texto é praticamente a versão online de puxar conversa no bar. A diferença é que eu, você e as outras pessoas que leram seu comentário estamos a uma internet de distância, e não no mesmo espaço físico.

      Curti a citação do Rust. É um personagem foda de uma das séries (ou pelo menos de uma das temporadas de séries) mais foda que assisti ultimamente. De fato estamos julgando o tempo todo, mas precisamos ter mínimas razões para isso. Acho que ficar fazendo julgamentos negativos sobre alguém sem saber nada sobre a pessoa escancara um vazio no interior de quem julga.

      Muito obrigado por participar aqui! =D

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  3. Grande texto Pedro!
    Parabéns e continua escrevendo assim.
    Abraço.

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  4. Outro tema só aparentemente simples. Nós julgamos muito. Mas para entender o que está por trás do ato de julgar, é necessário ter bem em mente a definição de preconceito ou pré-conceito – “ideia formada antecipadamente, sem fundamento, qualquer opinião concebida sem exame crítico, sem conhecimento abalizado e adequado, sem ponderação ou razão; concebido antecipadamente ou independente de experiência ou razão, um conceito formado de forma anterior ou antecedente à constatação dos fatos” (o exemplo do Dunga caiu muito bem). Ora, dessa forma temos tanto preconceitos negativos quanto positivos – você pode pensar que uma determinada pessoa é super inteligente porque os pais dela são doutores ou porque estuda num colégio de elite, ou achar que uma determinada empresa é de excelente qualidade porque o dono anteriormente fazia parte de uma grande empresa multinacional do ramo e tal, e, no entanto, em ambos os casos, estar totalmente enganado... sim, você julgou erroneamente com base em um preconceito. É o sentido mais acertado etimologicamente, mas hoje em dia grupos ideológicos fazem acepção do termo preconceito dando um sentido específico necessariamente negativo; na verdade, se apropriaram de tal forma que o sentido secundário já foi incorporado ao dicionário. Então, além do preconceito intelectivo e/ou intelectual, temos o preconceito sexual, racial, de classe...

    O pré-conceito é natural no sentido de que faz parte do processo cognitivo de se apreender um dado objeto-pessoa; como tal, é uma imagem primeira, provisória, sujeita a ajustes temporais e evolutivos conforme melhor se conhece o que se pretende conhecer. O problema existe quando se envolve juízo de valor, aí temos o preconceito no segundo sentido, que implica desvalorização, exclusão, estigma. Isso é bem usado por grupos LGBT, por exemplo, mas isso é outra questão. Então o grande problema é a “atitude preconceituosa”, quando você passa a agir norteado pelo preconceito, rotulando pessoas ou coisas a partir de uma generalização obscura. Essa atitude já foi fonte de muita angústia e injustiça mundo afora. Você disse uma grande verdade: “Quando você julga alguém sem motivo, o julgamento diz mais sobre você do que sobre a pessoa julgada. Diz sobre suas inseguranças, suas necessidades, seu caráter e mentalidade”. E bem observado, uma ótima constatação: “o mundo é de uma pluralidade incrível, então pra que fazer sempre o mesmo?”, o que nos leva a perda de diversas oportunidades na vida.

    De quando em quando, me lembro da história das três peneiras atribuída ao filósofo grego Sócrates, na qual se diz que uma coisa só deve ser propagada se passar pelo crivo dos três princípios da Verdade, Bondade e Necessidade. É uma ponderação a respeito de algo que acabamos de escutar/saber e o que fazer com isso. Achei meio pertinente...

    Sabia que sua aversão inicial à raiz de flor de lótus se encaixa na chamada tripofobia? Tenho calafrios quando vejo as imagens de tripofobia na internet, urrghh...

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    1. Tentei usar mais termos como "pré-concepções" ou "pré-julgamentos" justamente pra evitar a confusão com os preconceitos mais associados à palavra "preconceito" hoje em dia - cor da pele, opção sexual, etc. - já que no texto busco falar de preconceito em geral, em relação a qualquer coisa. Muito boa a sua lembrança do preconceito positivo. Me recordei de um caso: uma vez tava falando pra uma menina sobre os malefícios de algumas porcarias químicas que são colocadas nas comidas industrializadas e fiquei abismado quando ela respondeu algo do tipo "mas a empresa X é tão grande, tu achas que eles iriam colocar algo ruim na comida?!", num claro exemplo de preconceito positivo.

      Quanto à tripofobia, não sabia o que era e fui procurar. Olha, não vou me dizer que deu fobia, mas certamente algo me causou incômodo naquelas imagens. Talvez meu caso com a raiz de lótus tenha outra origem que não o preconceito então... haha

      Muito obrigado pelo comentário, mais uma vez, Darley! ;))

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  5. O preconceito nada mais é do que ter um conceito precipitado de alguma pessoa, alguma comida ou qualquer coisa. E é impossível o ser humano se livrar dos preconceitos, pois parecem que estão enraizados em nossa personalidade, porém deve-se sempre se autocensurar quando tiver um pensamento preconceituoso, e parar para se colocar no lugar da pessoa por meros 5 minutos.

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    1. Verdade, Bruno. Nos imaginarmos no lugar dos outros é uma boa pra tentar entender o outro lado e parar de fazer julgamentos desnecessários. Valeu pelo comentário! ;))

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