Se me roubam, por que não posso roubar?

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Onde as tretas acontecem

O jogo tava difícil, pegado. A verdade é que o outro time era bem melhor que a gente. Eles sabiam tocar a bola, criavam jogadas bem elaboradas. Nós éramos mais limitados, ficávamos na defensiva esperando uma chance de sair no contra-ataque. Abrimos 2-0, mas eles viraram para 2-4.

Era o time da firma jogando contra outra empresa. Aliás, se a sua empresa pensa em fazer networking com outras através de um campeonato de futebol, péssima ideia. Dá mais treta do que gera bons contatos.

O jogo tava se encaminhando pro final e o time ficou um pouco molenga, meio que desanimado sabendo que seria difícil virar o placar, sabe? Mas numa jogada individual conseguimos marcar o 4-3. Agora tínhamos chance de novo. Como a esperança muda o estado de espírito das pessoas! De repente estávamos de novo com o sangue fervendo, tirando energia de onde não tinha mais, correndo e gritando e tentando. Até que veio o lance fatídico.

Bola com os caras. Eu tô na defesa, perto da lateral-esquerda, marcando esse adversário. Ele controla a bola com a perna direita, partindo pra cima de mim, e dá um corte pra esquerda. Eu estico minha perna em vão. Não pego a bola. Meu pé vai direto na canela do coitado. Ele cai no chão e a bola fica com o nosso time.

Na hora eu levantei o braço e gritei pro juiz: "FOI FALTA". O juiz não ligou. Pedi desculpas pro cara, que meio que não quis saber, levantou e saiu reclamando. Na hora que olhei pra frente meu colega tinha acabado de chutar. A bola entrou no lugar mais delicioso do gol, no ângulo, e o jogo estava empatado. 4-4.

Eu normalmente berro pra caralho, grito, comemoro quando sai gol. Mas não consegui, fiquei me sentindo mal. Fiz uma falta claríssima em cima do cara, o juiz não deu mesmo comigo acusando a falta, e empatamos o jogo logo em seguida. Como o futebol é injusto, pqp.

O jogo seguiu. Roubei uma bola na ponta direita e cruzei pra um companheiro que tava livre no meio da área. Mas cruzei mal, em cima de um zagueiro que bloqueava o caminho. Dei sorte e a bola acabou passando no meio das pernas do zagueiro e sobrou com meu colega. O goleiro tentou sair pra cortar a bola, mas a redonda ficou com o cara do meu time, que agora tinha o gol aberto, a bola nos pés e a chance de virar o jogo pra gente.

Mas como o mundo dá voltas, ele sem goleiro e quase embaixo do travessão conseguiu o feito de chutar pra fora. E o juiz apitou o fim do jogo na hora. Tivemos a chance de ganhar no último segundo da partida, mas o destino deu uma consertada na cagad* que tinha feito antes e a bola não foi pras redes.

No final do jogo sentamos na arquibancada exaustos, tomando água e tal, quando um outro cara do meu time me fala: "Pedro, não fala nada cara!"

Nessa foto em Ultra HD dá pra me ver de calção vermelho ali na marca do escanteio

Respondi: "Cara, cada um cada um. Eu gosto de jogar limpo, só isso."

Ele: "Sim, entendo, mas se o juiz não apitou, não fala nada!"

Eu: "Mas foi uma falta clara cara. Eu chutei a canela do maluco. O nosso gol não deveria ter contado, foi falta minha."

Ele: "Sim, mas teve outro jogo em que nós perdemos porque o juiz errou também".

Esse argumento mexeu comigo.

Respondi: "Sim cara, mas se fôssemos todos pensar assim nunca ninguém faria um ato de boa fé no futebol. Nunca teríamos um Miroslav Klose, que várias vezes na carreira pediu para o juiz anular gols depois de ter marcado em impedimento, ou com a mão."

Ele: "É...."

Ele não falou mais nada, sabia que eu tava certo. No calor do momento as pessoas tentam ganhar vantagem de qualquer jeito (e olha que ele nem era brasileiro!). Mas analisando racionalmente, alguns desses argumentos são tão rasos e falhos que simplesmente não há o que discutir.


Um dos lances de fair play do Klose na carreira:


Eu poderia ter ido mais fundo na discussão. Poderia ter dito que esse argumento do "me roubaram, então posso roubar" é perigoso, porque pode justificar todo tipo de coisa ruim nesse mundo. Se os políticos corruptos roubam nosso dinheiro todo dia, por que não posso sonegar impostos? Se fui mal tratado pelo garçom num bar, por que não posso sair sem pagar, ou tratar ele mal também? Se um dia um carro passou na poça e me molhou na rua, por que tenho que tomar cuidado em não passar na poça perto de pedestres? Em geral, se me prejudicaram, por que não posso prejudicar os outros?

E assim seguimos, um fazendo merd* porque o outro já fez, e ninguém se sente tentado a fazer o bem, fazer o que é o mais correto.

É apenas um entre tantos argumentos ridículos e falhos que usamos ou ouvimos no nosso dia-a-dia. Como aquele de quem joga papel de bala ou bituca de cigarro na rua: "um só não vai fazer diferença". E 1+1+1+1+1.....? E se todos pensassem assim, como estariam as ruas? E as falácias argumentativas são inúmeras:

  • Quando alguém pega um caso isolado para justificar o todo. Exemplo: uma loja com 99% de avaliações positivas não ser confiável porque um amigo de um amigo não recebeu o produto que comprou.
  • Quando A gera B então A vai sempre gerar B. Exemplo: jogando na defensiva conseguimos bons resultados, então jogar na defensiva é sempre a melhor estratégia.
  • Quando alguém usa uma afirmação irrelevante para defender um ponto de vista. Exemplo: fulano nunca faria isso, ele parece uma boa pessoa tão boa.

E por aí vai.

Me parece que quando é para defender o seu, as pessoas usam as maiores falácias argumentativas que conhecem, deixando a racionalidade de lado. Se eu fui prejudicado, posso prejudicar o outro. Mas se meu vizinho usa o mesmo argumento, ele é um filho da puta, safado, sem vergonha. Se jogo minha bituquinha de cigarro no chão é só uma e não vai fazer diferença, mas se alguém joga lixo no meu quintal é porco e mal-educado.

Claro que em diversas situações fica difícil agir de forma mais bem pensada. Na mesma pelada desse dilema moral, tive uma discussão com um colega de equipe e fui grosso com ele. Depois pedi desculpas, mas no calor do momento não tomei a melhor decisão que poderia tomar. É normal, é humano. Mas creio que devemos fazer um esforço consciente para tirar essas laranjas podres da nossa mente. Espero que na próxima discussão que eu tiver em uma pelada, minha mente lembre rapidamente dessa discussão e trate qualquer outra treta com mais calma. Espero que o meu colega do "me roubaram, posso roubar" lembre da nossa conversa e tenha uma postura mais justa nas próximas peladas, mesmo se o adversário não fizer o mesmo.

E na dúvida, sempre uso uma frase que ouvi não sei de quem, não sei onde, mas que busco utilizar toda vez que me vejo sem saber o que fazer.

Na dúvida, faça o que é certo.

E o que é certo muitas vezes nós sabemos, só não fazemos.


O blog anda pra lá de abandonado. Eu poderia dizer que tô sem tempo, o que é verdade, mas atitudes demonstram prioridades e na real eu andei priorizando outros projetos na frente do doisbits. De qualquer forma, você que leu até aqui: por favor deixa um comentário pra me dizer o que achou desse dilema. Escrever sem trocar ideia com quem lê não tem graça!


2 comentários:

  1. Importante reflexão a partir de uma situação banal do cotidiano que, no entanto, ilustra perfeitamente! Esse caso mostra como o "bem" é uma realidade racional, ao passo que o "mal" é ilógico e irracional, sendo fácil perceber que se todos praticassem o mal o mundo seria um caos - nada se sustentaria, e não seria possível construir ou edificar nada. Quanto a você, percebo que tem a honestidade como um atributo natural, pena que nem todos tem isso e precisam "se esforçar" pra serem honestos...

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  2. Tem um ditado que escutei num podcast "se todo mundo praticasse a regra [olho por olho, dente por dente], o mundo inteiro estaria cego e banguela". Sinceridade sempre, eu acho. Sinceridade e honestidade.

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