Como foi morar nos EUA

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Não vou mentir, fui para os Estados Unidos querendo farra.

Tá, não só farra. Pensava em fazer uma grana por lá. Mas curtir era sem dúvida algo que eu esperava, afinal, tava indo com 4 amigos bem próximos e ainda carregando a patroa junto.

Essa motivação é bem distinta da minha vontade de viver experiências diferentes, que foi o que me levou a morar na China. A curtição hoje muito provavelmente não seria minha motivação principal, o que evidencia o quanto mudei, e o quanto uma pessoa em geral pode mudar, em poucos anos.

Intercâmbio nos EUA - Park City
Meu destino foi a pequena, turística, montanhosa e linda cidade de Park City

Esse post vai ser mais uma contação de história mesmo. Diferente da maioria dos textos do 2Bits, vai rolar pouca reflexão e mais fatos/curiosidades que rolaram comigo nos EUA. Deixa eu começar contando,..


Como e por que fui parar nos EUA

No longínquo ano de 2010, o mosquito do mundo não tinha me mordido ainda. Não fui para os Estados Unidos porque gostava de viajar ou por querer conhecer um novo país. A verdade é que esses programas Work and Travel (ou Work Experience), onde o cara vai pra trampar por uns 3 ou 4 meses, são altamente divulgados para a comunidade universitária. Como um estudante qualquer, fui muito exposto à este tipo de propaganda e meu desejo de embarcar num programa desses acabou se concretizando quando outro amigo topou ir comigo. No fim das contas, mais um amigo se interessou em ir, e depois mais um, e depois esse mais um carregou a namorada, e eu carreguei a patroa, e fomos em 6.

Morar nos EUA - Park City
A vista do avião na chegada foi de tirar o fôlego (e eu nunca tinha visto neve)

Não escolhi os EUA. Os EUA vieram naturalmente na minha vida, como vem também naturalmente na vida de tantos outros jovens que fazem sua primeira viagem para o exterior. Esses programas Work and Travel tornam os Estados Unidos um destino quase óbvio para um universitário comum. Mas valeu muito a pena e espero que ao longo do post os motivos fiquem claros.


Moradia

Imagina achar uma casa pra alugar, nos EUA, estando no Brasil. É difícil pra caralho. Começa que, por incrível que pareça, em 2010 o Facebook estava engatinhando no Brasil e o Whatsapp praticamente não existia. Os americanos nunca usaram Orkut e disso tudo já surgia um vazio na nossa comunicação com eles. A solução em geral era trocar e-mails. E como mandei e-mails naquele ano...

Procurava casas pra alugar no craiglist e outros sites americanos. Quando achava algo decente, mandava e-mail. E recebia pouquíssimas respostas. Imagina você sendo um americano bem de vida, com uma casa pra alugar numa cidade turística dos Estados Unidos. Recebe um e-mail de um cara do Brasil, falando que quer alugar sua casa. Esse cara explica que está indo com outros jovens pra trabalhar durante um curto período de tempo e de forma alguma vai fazer um pagamento à distância, já que pela internet é difícil ter uma confirmação 100% de que a casa sequer exista. Com outras ofertas batendo frequentemente na porta, você vai aceitar? Difícil.

Então comecei a ligar. Depois de várias tentativas frustradas, consegui bater papo pelo telefone com um dono de uma casa. Meio que acertamos o aluguel. Mas literalmente um dia antes de entrar no avião, ele me avisa que não ia mais rolar. Alugou pra outro, sei lá. O cara já tinha sido bem burocrático antes de fazermos aquele meio-acordo: tinha pedido extratos bancários pra comprovar que poderíamos pagar, cópias dos documentos da galera, assinatura de uma espécie de contrato e tudo mais. Mas mesmo assim, cancelou de última hora. E embarcamos para os Estados Unidos sem casa e sem emprego. Só alegria.

Morar nos EUA - Park City - Salt Lake City
Estrada de Salt Lake City (onde fica o aeroporto) para Park City (onde morei)

Chegando nos EUA, nos hospedamos numa pousada. Conectei na internet que mal pegava no quarto e quando abri o notebook tava lá um e-mail do cara. Ele voltou atrás e avisou que alugaria a casa pra gente. Opaaaa, aí sim! O cara era empresário e não morava na cidade, então explicou por e-mail onde achar a chave da casa. Os americanos tem o costume de deixar a chave embaixo do tapete ou em outro lugar por perto. No nosso caso, tava numa caixinha que ficava ao lado da porta, com abertura por senha, e que servia só pra guardar a chave mesmo. Nunca vimos isso no Brasil pois com certeza alguém arrebentaria a caixinha com uma marreta no primeiro dia pra roubar a chave. E lá fomos nós, à noite, procurar a casa. Tava escuro pra caralho, tinha neve pra caralho, e não achamos a bendita. Deixamos pra ir no outro dia e que puta surpresa encontramos.

Pouco mais de 24 horas antes, estávamos desesperados procurando um lugar pra morar. Por isso, quando conseguimos pegar a chave, abrir a porta, entrar e ver que a casa era até maior que imaginávamos, a reação normal foi se jogar com tudo na cama king size do melhor quarto da casa. E a parte da moradia tava resolvida.

Morar nos EUA - Casa aluguel
O quarto mais disputado da casa

Morando em 6 8

A casa tinha 2 quartos e 2 semi-quartos. Como estávamos em 6, tinha espaço pra PELO MENOS mais 2 pessoas. Digo pelo menos porque em muitas casas de brasileiros por lá, a galera dormia aos montes na sala, no chão mesmo. A gente, com 2 pessoas por "quarto", tava era muito confortável.

Morar nos EUA - Casa aluguel
"Semi-quarto" porque logo depois daquela paredinha baixa ali, olhando pra baixo era a barulhenta sala

Morar nos EUA - Casa aluguel
Isso aí no meio era o segundo semi-quarto, o pior da casa por motivos óbvios

Havia alguns candidatos a pegar estes 2 últimos lugares e acabamos fechando, pelo Orkut, com um casal que por sorte deu muito certo. Se entrosaram bem pra caramba com nós 6 e mantemos algum contato até hoje. Mas morar com outras 7 pessoas não é tão fácil.

Afinal, não são 2, 3 nem 4 cozinhas. É só uma. E só uma sala. E muita gente não tem os mesmos hábitos de limpeza e organização que você. Além disso, respeito com o barulho, por exemplo, é algo que não deve fazer a menor diferença na sua relação com os amigos no dia-a-dia, mas quando vai morar com eles faz TODA a diferença. Essas paradas todas acabavam resultando em insatisfações, às vezes pequenas, às vezes maiores, de todos os lados. Uns reclamavam de outros, e os outros que sujavam a mesa toda e acumulavam uma pirâmide do Egito de louça suja na pia não gostavam das reclamações. No final, eu em particular já tava criando uma raiva de 2 dos meus melhores amigos. Não pela amizade, que continuava a mesma. Mas pela convivência diária e a divisão de espaços, que não funcionava bem como todos queriam.

Mas fora esses pequenos estresses, a experiência foi muito boa. Morar com os seus amigos te faz conhecer eles mais à fundo, aprofunda a amizade. Todos tínhamos rotinas diferentes, portanto depois do dia trabalhando a volta pra casa era uma baita contação de histórias. Ficávamos de galera na sala conversando, comendo miojo com pringles e trocando experiências. Além disso, a gente bebia junto, esquiava junto, ia fazer compras junto. Às vezes de galera, às vezes só com 1 ou 2, mas sempre acompanhado de alguns dos meus melhores amigos. Tem coisa melhor? Por essas e outras que ainda lembro dessa viagem com muito carinho. Mas não só pelos amigos, também pelos trampos que tive por lá.


Trampo 1: Atendente no Boliche

A procura de emprego era intensa assim que chegamos na linda Park City. Abri um jornal local e vi que teria uma feira de empregos em um hotel novo. Pensei que dava pra passar nessa feira enquanto batíamos perna pela cidade no dia seguinte. Saímos pra procurar trabalho e fomos perguntando pelo caminho onde era esse hotel novo. Quando eu e a patroa achamos que tínhamos chegado, um cara nos disse que era ali mesmo, mas no topo da montanha e não na base onde a gente tava. Olhamos pra cima: o hotel era longe pra caralho e a estrada não tinha calçada. Subir a pé não era uma opção. O desconhecido disse que dava pra ir de busão, mas não soube dar muitos detalhes. Nós tavamos cansados, meio perdidos e acabamos desistindo. Mas às vezes a sorte bate na porta e dá o empurrão que falta pras coisas darem certo.

Depois de andarmos uns 10 passos de costas pro último cara que nos deu informações, ele grita alguma coisa. Não entendi bulhufas do que ele falou. Viramos pra trás e o maluco tava oferecendo uma carona lá pro topo da montanha. Fomos felizes e contentes.

Chegando lá, o hotel era muito top. Mais que cinco estrelas, era hotel pra ricaço mesmo, coisa de 600 e poucos dólares a diária mais barata. Era o destino de gente famosa que ia visitar Park City, tipo o Steve Carell, que vi por lá. Bonitão por dentro e por fora, com uma vista de fazer o cara babar. Fomos pra área onde tava rolando a feira de empregos, pegamos uma senha e ficamos esperando nos chamarem, meio sem ter ideia de quais vagas estavam disponíveis e do que ia rolar na feira. Uma moça veio e nos mandou preencher um formulátio online, numa salinha com vários computadores. Apliquei pra vaga de busser (assistente do garçom, o cara que limpa as mesas). E beleza, fiquei ali esperando. Quando fui chamado pra primeira entrevista.

Trabalhar nos EUA - Hotel em Park City
Hotel fica quase no topo da montanha, a uns 2.700 metros de altitude

O processo de contratação deles era todo baseado em entrevistas. Você ia falando com os diversos gerentes e diretores, que iam te encaminhando pras áreas onde achavam que você se encaixava melhor, pra você então conversar com outros gerentes e diretores. Sinceramente, eu não tinha emprego e estava disposto a pegar qualquer coisa. Dishwasher (lavador de louça) é um dos trampos comuns que os brasileiros e outros latinos costumam pegar nesses intercâmbios de trabalho. E eu tava aberto à essa possibilidade. Até que fui surpreendido quando cheguei na minha 6ª entrevista.

Botei minha mochila no chão, meus trilhões de casacos em cima dela e olhei pra um careca sorridente que sentou na minha frente. Ele começou a fazer as mesmas perguntas que tantos outros já tinham feito antes. Sinceramente, é um saco ficar repetindo a mesma coisa toda hora, mas respondi tudo numa boa, sorrindo. Então ele disse que eu, tão chamado de rabugento e ranzinza por alguns amigos, era um cara sorridente. E perguntou se eu era sempre sorridente. Falando assim até parece que o cara era um pervertido da porra, mas na real ele queria saber se eu estava apto a trabalhar lidando diretamente com o público. É claro, num hotel chique daqueles é normal que queiram gente sorridente pra passar uma boa imagem pros ricões.

"Blá blá, aí tem jogos, e videogame, blá blá...".

Quando percebi, o cara tava falando essas coisas. Eu, perdidaço naquela feira de empregos, falando com a 6ª pessoa que eu nem sabia quem era, ouvindo sobre jogos e coisas divertidas? "Mas peraí, eu vim aqui pra pegar qualquer trampo. Me inscrevi pra limpar mesas!", pensei comigo. Eis que o hotel tinha um bar. E o bar tinha uma sala de jogos e uma pista de boliche. E ele me chamou pra trampar de atendente no boliche.

Saí dessa entrevista sabendo que ainda tinha uma última por vir, que ia selar minha contratação ou não. Meio atordoado, sequer tinha certeza do que tinha sido oferecido pra mim, mas sabia que era coisa boa. Fiz a última entrevista e fui encaminhado pra salinha do RH. PIMBA! O trampo era meu. Assinei o contrato e só fui realmente descobrir o que era no primeiro dia de trabalho.

Trabalhar nos EUA - Hotel em Park City
Cuidava dessa área toda aí, destinada ao Boliche

Basicamente cuidava do Boliche. Atendia os clientes, ligava e desligava as máquinas, passava óleo nas pistas, tirava os pinos que voavam do nada nos "bastidores" lá atrás, emprestava e recebia de volta os tênis próprios pra boliche (guardando só depois de dar uma obrigatória sprayzada de desinfetante).


Trabalhar nos EUA - Hotel em Park City
Também tinham 2 mesas de sinuca entre o boliche e essa sala de jogos

Vivia nessa sala de jogos, lidando com o equipamento de sinuca (não aparece na foto) e ajudando a criançada a jogar Wii (a maioria já sabia, quem não manjava era eu). E além disso, quebrei galho como garçom, food runner (entrega comida nas mesas), busser (limpa as mesas), host (fica na porta dando boas-vindas e botando a galera na lista de espera pra sentar). Fiz de tudo um pouco lá. Às vezes não tinha cliente nenhum, era mandado embora mais cedo e perdia grana, já que ganhava por hora. Às vezes trabalhava por 10 horas em pé numa correria insana, só parando pra comer uma vez, e fazendo mil coisas ao mesmo tempo. Quando era assim, cansava mas era bom, já que às vezes passava das 40 horas por semana e hora extra lá também paga 50% a mais. Sem contar que a maioria do meu salário era baseada em gorjetas, então quanto mais movimento, mais clientes, mais gorjetas.

Fazendo esse tipo de programa de trabalho, meu trampo era o dos sonhos. Uma galera que estava lá na cidade tinha uns trabalhos mais chatos, ou que pagava menos, ou que não fornecia horas suficientes pro cara juntar uma grana. Eu não só lidava com coisas divertidas como ganhava muito bem. E graças a esse trabalho voltei pro Brasil com o objetivo cumprido: tinha feito um pézinho de meia pela primeira vez na vida.


Trampo 2: Manobrista

Se meu 1º trampo foi conseguido de forma surpreendente, o 2º foi de um jeito bizarro.

2 amigos meus tinham conseguido uma entrevista num hotel bem perto da nossa casa, 10 minutos caminhando. Na hora de eles irem pra entrevista, simplesmente fui junto, como se tivesse sido chamado também. Chegando lá, ninguém perguntou nada. Nós 3 conversamos com o gerente, assinamos uma papelada gigante, já recebemos treinamento na hora e voltamos pra casa empregados. Nem acreditei, mas foi assim fácil que eu consegui meu 2º trampo. E comecei a trampar lá de madrugada, revezando com os outros 2 brothers durante a semana.

Trabalhar nos EUA - Hotel em Park City
Ficava ali na entrada. O hotel não era tãããoo foda quanto o outro, mas era pra rico também.

Meu turno era das 23:30 às 7:30. O que significava duas coisas: pouco trabalho e pouca gorjeta. Muitas vezes ficava jogando Football Manager a madrugada inteira numa salinha atrás da recepção. Simplesmente o movimento era zero, ou perto disso, entre 1 e 6 da manhã, mais ou menos, e eu ficava lá no computador com o ouvido atento pra caso rolasse um movimento no lobby. Eu era valet (manobrista), ajudava os hóspedes a transportar malas e quebrava um galho com qualquer coisa que precisassem por ali. Parte do meu tempo passava na garagem, com umas 40 chaves de carros no bolso, fazendo um inventário de todos que estavam estacionados com a gente.

De noite era frio. Muito frio. Frio pra caralho. Congelava as mãos mesmo de luva e as orelhas mesmo de touca. Não dava pra ficar muito tempo ali fora não e a caminhada pra casa depois do amanhecer por vezes era tensa. Às vezes chegava desse trampo às 8, dormia 1 horinha e às 10 já tava batendo ponto no outro hotel. Chegou a ter dias em que eu saía de um turno noturno no outro hotel, ia direto pra esse aí, dormia 1 horinha e ia direto pra um turno matutino no outro hotel de novo. Loucura e pouco sono, mas valeu a pena. Tinha ido pros EUA pra trabalhar e tava tendo a oportunidade de trabalhar, o que era ótimo, já que tanto amigos meus quanto outros brasileiros que estavam na cidade tinham dificuldades pra conseguir horas no trampo. E o salário era por hora, então sem horas, sem grana.

Foi bom demais. Experiência bem diferente que guardo com carinho até hoje. Nesse trabalho eu tinha um contato mais próximo com alguns hóspedes, batendo papo no elevador e ajudando-os com suas malas, dirigi dezenas de carros diferentes, dava umas bandas com o carro do próprio hotel e tive a oportunidade de ver umas 100 pessoas de pijama no salão principal em uma madrugada em que o alarme de incêndio tocou.


Viagens

Na época que fui pros EUA, não era muito de viajar e acabei preferindo construir uma poupança mais parruda do que torrar minha grana passeando. Se fosse hoje, com certeza faria diferente. Mas também não passei em branco. Uma vez alugamos 2 carros e fomos de bando pra Las Vegas.

Morar nos EUA - Viagem Las Vegas
Formações bem loucas no caminho de 6 horas pra Vegas

Morar nos EUA - Viagem Las Vegas
Mas a maior parte da estrada é assim: uma reta interminável sem muita coisa pra ver dos lados

A cidade é basicamente só a avenida principal e fica no meio do deserto. Tudo brilha e tem um hotel mais louco que o outro. Fomos num com uma montanha-russa metade dentro do hotel, metade fora. E tinha outro hotel com uma montanha-russa e outros brinquedos insanos no topo. Subi na Torre Eiffel fake e fui com a galera pra um puteiro, de onde saímos escurraçados e gritando com os seguranças. Na hora foi tenso, mas depois de anos o cara se diverte lembrando das histórias.

Morar nos EUA - Viagem Las Vegas
Vista da Torre Eiffel fake: não tem muita cidade fora da avenida principal

Além de Vegas, também passamos em Salt Lake City, a capital do estado onde morávamos (Utah). Fomos meio que no susto e não achamos nada de tão irado lá, mas visitamos o estádio do Utah Jazz (por fora), uma espécie de planetário modernão e demos altas bandas pela cidade.

O que mudou

Mundo. Depois de visitar um lugar com umonte de coisas diferentes, pegar -25 graus na rua, atolar a perna na neve, falar outra língua e ter experiências novas, a vontade de viajar nunca mais vai parar. O mosquito do mundo me mordeu. Pelo menos comigo foi assim. Por isso, sou grato aos Estados Unidos, por ter aberto meus olhos para ver além da minha vida no Brasil. Sem dúvida essa minha primeira grande viagem influenciou muito minha ida pra China, que foi a melhor e maior experiência da minha vida.

Carreira. Acreditava muito em construir carreira em grandes empresas. Acreditava em sucesso profissional medido através de grana, de cargo e da corporação para a qual eu trabalhasse. A ida para os Estados Unidos me fez ver, pela primeira vez, que esse não era o único caminho. Que dava pra viver de boa de outras formas. Que dava pra ganhar grana suficiente e ser feliz pra caraca trabalhando em trampos mais "simples". Os EUA quebraram aquela visão de carreira que eu tinha, e que muitos estudantes da área de negócios têm. Foi excelente nesse sentido. Talvez a viagem tenha influenciado o fato de eu ter trabalhado pela internet por 1 ano e estar sem emprego formal no momento. E talvez tenha influenciado o fato de eu estar tocando um blog, ao invés de estudando pra concurso, por exemplo.

Relacionamento. Hoje eu e a patroa estamos juntos há mais de 5 anos, mas quando fomos para os EUA não tínhamos nem 6 meses de namoro. Na verdade, eu já tinha tudo certo para viajar e ela ficaria no Brasil. Nem sabíamos o que ia acontecer quando eu fosse. Eis que um dia convidei ela pra viajar comigo e, pra minha surpresa, a louca aceitou! Já era meio em cima da hora e ela não tinha grana, mas deu um jeito. Pegou um empréstimo, entrou no avião e foi viver comigo nos EUA. Dividir tudo e morar junto, com tão pouco tempo de namoro, pode ser difícil. E pra gente foi um pouco. Lembro com clareza uma discussão meio pesada que tivemos. Lá, tivemos o nosso pior momento juntos até hoje, mas essas dificuldades levaram a um amadurecimento muito grande. Desde então, temos mantido um namoro saudabilíssimo, inclusive enquanto moramos juntos na China, com muita honestidade e quase sem brigas, talvez pela espécie de choque que os EUA deu nos dois.

Independência. Sempre fui bem independente. Desde pequeno sei cozinhar, aprendi a limpar a casa e, por saber economizar mais que os adultos, ia no supermercado fazer a compra do mês pra família. Mas morar fora, ainda mais indo sem emprego e sem moradia, é diferente. Hoje parece meio coisa de criança contar isso, mas pra quem vive com os pais a vida inteira, sair de casa pela primeira vez é muito difícil. Não tem ninguém pra pagar suas contas e você tem que resolver os problemas na marra, custe o que custar. Não arranjar trabalho, por exemplo, não era uma opção. Tinha que ir pra rua na cara e na coragem, dar de cara na porta repetidamente, até dar certo. O mesmo com a moradia, que no final deu tudo certo mas foi resultado de uma insistência gigantesca que já vinha desde o Brasil. E precisava acordar cedo sem a possibilidade de continuar dormindo, como acontecia na faculdade. Tinha que trabalhar bastante, fazer trâmites no banco, pagar aluguel, comprar comida tirando do próprio bolso. Essa experiência nos EUA me trouxe muito em termos de coragem, persistência e dedicação. Um brother que foi comigo define a viagem como "um estágio pra vida adulta".


Valeu a pena?

Quem vê aqueles anúncios de programas de trabalho nos EUA pode pensar que é bobeira, mas tá longe disso. Viajar pra fora quase sempre traz benefícios pra vida da pessoa. E ir pros EUA me trouxe crescimento em todas as áreas: cultural, pessoal, profissional e até socialmente. Sem dúvida foi um aprendizado muito grande e ajudou a definir quem eu sou hoje (por sorte, bem diferente daquele mané que embarcou em 2010).

Não digo nem para os Estados Unidos em específico, mas se você tiver a oportunidade de morar fora, vá. Você não vai se arrepender.






Esta é a parte do post onde eu imploro pra você participar. Comenta aí alguma coisa ou fala comigo lá no twitter! Interagir com quem lê é muito importante pra quem escreve, então me dá essa força, vai! ;))


8 comentários:

  1. EUA, a terra das oportunidades – onde qualquer um pode conseguir o tal “sonho americano”, desde que bem entendido: segundo o historiador James Truslow Adams (1878-1949), “... não é um sonho de carros e salários altos apenas, mas um sonho de ordem social onde cada homem e mulher possam alcançar a maior posição da qual são naturalmente capazes...”, ou até onde se sintam satisfeitos, eu acrescentaria.

    Sua experiência é bastante esclarecedora pra quem pretende algum dia viajar para além dos limites do Brasil, não só para os EUA, mas para qualquer outro lugar do mundo: a dificuldade de achar um local pra ficar, o bate-bate de pernas à procura de trabalho, a lida com hábitos culturais diferentes, no caso dos estadunidenses, o sistema de grana por hora. Cara, mas eu devo dizer que você foi bastante abençoado viu, pois pegar como primeiro emprego um trampo desse (atendente da sala de jogos, wow!) foi muito bacana, e num hotel cinco estrelas! Aliás, a foto do tal hotel me lembrou do hotel do livro e filme “O Iluminado” – bonito e situado em um ambiente fértil para lucubrações poéticas ou imaginativas. Com a dupla jornada de trabalho a rotina ficou corrida hein? Sei bem como é privação de sono, a longo prazo inclusive pode causar danos à memória, você acaba ficando parecido com zumbi ao longo do tempo, esquecendo coisas porque não estava com atenção suficiente para retê-las, assemelhando-se ao Mal de Alzheimer , enfim, outra questão. Aliás, quanto tempo exatamente você ficou nos EUA? E outra, sabe me explicar como é uma estância turística de cabines, tipo, estância turística de Keddie? Li em algum lugar uma vez e fiquei sem entender.

    Os EUA também são um país de dimensões continentais né? Por isso as viagens parecem ser semelhantes às daqui no Brasil, de uma cidade pra outra tem distância de horas e tal. A primeira foto da viagem para Las Vegas me lembrou GTA SAN ANDREAS, rsrs, quando você está na highway, aliás, esse GTA tem como locações de inspiração os estados da Califórnia, Nevada, Arizona e Utah. A cidade de Las Vegas é de uma malha urbana bem esquemática então, não? Nos filmes a vemos quase sempre à noite, justamente porque ela tem luzes por tudo que é canto, realçando então o hedonismo (e perdição...) da cidade dos cassinos. E o nome Salt Lake City me parece familiar também, algum filme... kkkk É o softpower dos EUA.

    Então parece que essa viagem funcionou como um rito de passagem para a vida adulta, uma ocasião de amadurecimento pessoal, correto? Você deixa transparecer uma mente profissional moldada para o século 21, com tendência a serviços de formato não tradicional. Cara, só tenho a desejar-lhe todo o sucesso do mundo, e que procure escrever sempre que possível!

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    1. Eu fiquei só 4 meses nos EUA. É o tempo de duração do visto que este tipo de programa "Work and Travel" dá. Mas confesso que mesmo que pudesse ficar mais tempo, teria voltado pra casa. No final da viagem já estava bem cansado daquela rotina louca e até da neve, que é MUITO legal no começo, mas depois atrapalha bastante a vida. Quanto ao meu trabalho ali no boliche, sem dúvida eu dei sorte. Não só com os gerentes do hotel me botando numa área tão legal, mas principalmente com aquele cara me oferecendo carona quando eu já tinha desistido da feira de empregos. Mas nessas situações também gosto de pensar que a sorte não é tudo. Certamente ela foi determinante, mas nada disso teria acontecido se eu não tivesse caminhado bastante e perguntado muito na rua pra conseguir chegar no pé da montanha, e também se não tivesse sido simpático e dado boas respostas nas entrevistas que fiz.

      Foi realmente uma viagem que me transformou. Não tanto quanto a ida pra China, que realmente trouxe o Pedro que sou hoje à vida, mas também foi muito benéfica. Recomendo viagens em muitas situações e pra crescimento pessoal não é diferente. Como sempre, valeu pelo comentário e muito, muito obrigado pelo seu elogio ali no final. Botou um sorrisão no meu rosto! Abraço!

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  2. Cara, a questão da língua foi um problema pra ti? Você fez curso ou algo do tipo? Adorei seu relato, principalmente a parte da carreira, pois eu, vestibulanda, esperando resultado de vestibulares para entrar em uma universidade, com aquela ideia fixa de carreira, acabo querendo repensar nesse lado da vida, porque com certeza é tudo muito novo, não é mesmo?! Essas experiências de conhecer o mundo por alguns meses parecia algo muito distante, mas quem sabe, hahahah.... Parabéns pelo blog!

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    1. A questão da língua não foi um problema não. Eu já tinha um inglês intermediário alto, digamos assim. Fiz 1 semestre de curso, mas na verdade aprendi sozinho mesmo e principalmente jogando videogame! haha

      Se você tiver a oportunidade de viajar pra fora, só apoio! Faz muito bem pra qualquer um :)

      Obrigado por deixar um comentário aqui! ;))

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  3. Bacana teu texto e principalmente tua experiência, que é algo que eu quero muito fazer e ainda não fiz por um tanto de medo e falta de grana pra ir pra lá (pros EUA especificamente) de um modo confortável. Mas ler experiências como a tua fazem pensar em retomar esse plano, apesar de minha idade já não ser mais tão compatível com esses programas. Mas bem legal mesmo. Deu aquela "inveja", sabe?
    Uma pergunta: já vi que você respondeu pra outra pessoa que se pudesse ficar mais tempo, ainda assim voltaria pra casa. Mas se fosse pra outro lugar, sem esse problema da neve e tal, você toparia? Ou a experiência que teve lá nesses meses já foi suficiente? Valeu! Sucesso!

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    1. Quanto ao medo, o cara tem que enfrentar. As coisas que você sente quando enfrenta seus medos e se joga em novas experiências são boas benéficas a longo prazo. Te ajudam a crescer como pessoa.

      Quanto à voltar, o tempo manda. Hoje confesso que os EUA não está na minha lista de prioridades, mas se tivesse a oportunidade de voltar pra passar algum tempo, faria correndo. Simplesmente porque as coisas que me incomodaram ao ponto de eu querer voltar pra casa já sumiram. A cabeça já está renovada pra abraçar o mesmo desafio novamente. Acho que pra quem sai do país nenhuma experiência é suficiente, o cara acaba sempre querendo mais. Mas sem dúvida foi o suficiente pra me mudar bastante como pessoa. E suficiente pra eu falar com certeza que valeu a pena.

      Valeu por comentar, Felipe. Se tiver mais alguma coisa que eu possa ajudar, tamo aí! ;)

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  4. Adorei o seu blog! E esse post parece que foi pra mim. Ainda vou conhecer San Francisco!

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    1. Muito obrigado, Ale! E com planejamento quase qualquer viagem é possível. Boa sorte!

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